Antes mesmo do distanciamento social, a divisão violenta de opiniões já havia afastado pessoas, ampliando a falta de diálogo e promovendo a intolerância.

Leonardo Benassatto/Reuters – 24.03.2020

Polarização no país aumenta ainda mais a intolerância

Graças à polarização, a impressão que tenho cada vez que converso com alguém é que estou passando por alguma espécie de teste para que meu interlocutor avalie a “qual lado” pertenço.

Por ser uma análise rasa e bidimensional, os resultados são obtidos geralmente com uma rapidez assustadora.

Se nos primeiros minutos de conversa não houver nenhuma crítica ferrenha ao governo, mesmo que o assunto seja qualquer outro, isso já é um forte indício de que sou a favor. E não apenas a favor de algumas questões, mas sim, totalmente a favor de todas as medidas.

E se, ao contrário, houver algum comentário contra uma ou outra tomada de decisão do governo, significa que sou 100% contra. É preto ou branco sem nenhuma possibilidade de haver quaisquer outros tons e nuances.

Uma vez finalizado o tal teste de posicionamento, recebo um dos dois únicos carimbos possíveis:

“Apoiada” sem mais questionamentos.

Ou “cancelada”, a nova palavra para qualificar a pessoa que, além de não merecer ser ouvida, precisa ser calada imediatamente.

Porém, a análise de um fato – ainda que óbvio – já foi o suficiente para ter sido classificada como mais um membro pertencente ao grupo dos que só pensam em dinheiro e não valorizam a vida. Assassina!

As subdivisões dessa polarização doentia que se veem de uns tempos para cá em todos os níveis da sociedade estão reduzindo as pessoas – seres individuais, complexos e equipados com um cérebro superpoderoso – a grupos separatistas onde ninguém parece ter capacidade de pensar por si mesmo.

A impressão que se tem é de que todos nós somos obrigados a escolher um lado e defendê-lo cegamente, como se fôssemos seres totalmente irracionais.

E, como única tarefa, nos cabe apenas o trabalho braçal de reunir o maior número possível de pedras para atirar no lado oposto.

E em meio a essa selvageria toda, quem atira mais pedras tem maior probabilidade de ferir seus desafetos, “provando sua superioridade” na base da força.

Caminhamos cada vez mais para uma sociedade intolerante e desequilibrada, que prioriza a conclusão rasa e imediata em detrimento do pensamento analítico, que valoriza mais o combate do que a conversa, onde o grito supera o argumento e o equilíbrio dá lugar aos extremos.

E, para completar, a histeria tem sido capaz de abafar o bom senso.

Se continuarmos nesse ritmo, será que sairemos desta quarentena sendo pessoas melhores?

 

Post publicado na coluna Patricia Lages, no R7

Leia também: Apego: do que você não consegue se livrar, mas deveria?

Jornalista, especialista em finanças e autora de 5 best-selleres. Colunista do portal R7 e apresentadora do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

  • Concordo muito com seu pensamento. Parece que não podemos opinar e assumir alguma posição, pois já seremos taxados como a favor ou contra este ou aquele. Não nos iludimos quanto a esse mundo que será tão melhor, será diferente, mas melhor só o tempo dirá.

  • Nossa Patrícia exatamente isso, tenho pensando muito nisso ultimamente, ficamos reféns do medo, medo de expor nossas opiniões, porque você não pode ser ponderada, mas tem que ser extremista, ou está “fechada” com esse ou aquele / “ninguém solta a mão de ninguém” AFF, ou você é um traidor, falso, sei lá mais o quê, estava lembrando dos tempos na escola, que na minha época já estava começando a ter uma certa ideologia (há mais de 15 anos atrás) mas ainda era possível você ter sua opinião, onde todos conviviam de forma mais harmoniosa, havia respeito e o mais engraçado é que hoje eles pedem respeito mas são os primeiros a desrespeitar os que pensam diferente, enquanto isso nos cabe “não vos conformar com este século”, que o Senhor Jesus nos dê forças e lucidez, obrigada pelo post!

  • “Graças à polarização, a impressão que tenho cada vez que converso com alguém é que estou passando por alguma espécie de teste para que meu interlocutor avalie a “qual lado” pertenço.”

    Eu, eu, eu no meu trabalho. Por isso, estou amando home office.

    No meu caso, fui classificada de isentona que pertence ao reino da isentolândia, um povo que gosta de prudência e sofisticação. Tipo um Game of Thrones tupiniquim.

    O bom senso é o alface servido no meio de um grande banquete. Só vamos notá-lo depois de nos empanturrar.

  • Oi patrícia boa noite! É verdade, pessoas estão sofrendo por ter perdido seus empregos e não tem como se sustentar e sustentar suas famílias. Não concordo em manter tudo fechado, as pessoas precisam trabalhar, e isso não é uma questão de não valorizar a vida, pois é o trabalho das pessoas que fazem com que elas tenham alimento na sua mesa. Pois não adianta elas estarem em casa em quarentena para não morrem de Covid-19 e morrerem de fome. Outra coisa,acredito que tomando os devidos cuidados os comércios podem se manter abertos.

    Até mais!

  • Escolha este ou aquele governo, escolha a vida ou a economia, falta mesmo um ponto de equilíbrio. Indiferente da sua opinião você será julgada 😕

  • “A impressão que se tem é de que todos nós somos obrigados a escolher um lado e defendê-lo cegamente, como se fôssemos seres totalmente irracionais.” Então penso, sinceramente: isso poderia nos levar a uma guerra civil. Que Deus tenha misericórdia desta nação!

  • Pois é, estou com medo das pessoas, meus parentes estão divididos deste a eleição para presidente, e parece que isso piora a cada dia.

  • Olá Patricia Lages.
    O meu assunto não se refere a este artigo,mais não achei outra forma de falar com vc.
    O que posso fazer com minha dívida do cheque especial,pois gostaria de parar de pagar,o valor cobrado por mês está insustentável,gostaria de juntar este valor até uma negociação aceitável a minha realidade.
    O problema que a cobrança já cai direto em minha conta.
    Como devo proceder,vc poderia me orientar nesta questão?
    Obrigada.
    Deus te abençoe.
    Fátima Castilho.

    • Vc pode contratar um crédito pessoal com uma taxa menor e quitar o cartão. Assim vc ficará com parcelas fixas e um valor total bem menor.

  • o problema não acaba só nisso se apenas ouvirmos a opinião e não expressarmos a nossa nos posicionarmos de um lado
    dizem que estamos “em cima do muro” e acaba ate amizades .
    as pessoas perderam a capacidade de pensar por se mesmas e tomarem suas próprias decisões, o ser humano ate parece esta virando maquinas. muito triste .

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