Pretendo que o texto do Fiuza seja o último sobre quarentena, pandemia e afins aqui no blog. Sinto-me no dever de prestar esse serviço às minhas leitoras.

Os sócios da paralisia

Por Guilherme Fiuza

Você está em casa assistindo o governador de São Paulo assumir a paternidade da cloroquina, o ministro da saúde explicar que traficante também é gente, jornais estrangeiros publicarem fotos de covas abertas para dizer que o Brasil não tem mais onde enterrar seus mortos, entre outras referências intrigantes e estridentes ao mesmo assunto.

Se você está paralisado, catatônico, é porque você já sabe que isso é um show mórbido. Mas você está esperando que alguém te diga isso. Então vamos lá: isto é um show mórbido.

Levanta daí. Onde estão os mapas demonstrando os resultados diretos do isolamento total na contenção da epidemia? Ou na suavização dos picos? Aqui vai uma notícia real no intervalo da novela: eles não existem. Repetindo:

Os mapas comprovando o efeito mitigador do confinamento geral sobre o número de infectados, de internados e de mortos não existem.

Nova Iorque se trancou em casa e a curva da epidemia seguiu quase como uma reta para cima. Dias, semanas e o gráfico inabalável. Mais para subida de foguete do que de avião. A Itália completou um mês de quarentena e a epidemia voltou a se expandir. Vocês que entendem de curva, que curva é essa da Itália? Nesse meio tempo, a FAU alertou que nesse nível de paralisação atual, o mundo tende à escassez de alimentos. A pergunta aos especialistas é: é para ficar em casa só até morrer de fome ou um pouco mais que isso? Em vez de mapas e modelos comprováveis, o que você vai ouvir em resposta é que sem quarentena seria pior e fim de papo. Os filósofos do Lockdown são invencíveis. E eles falam pouco. Então é melhor não insistir porque senão eles gritam com você. “Seu irresponsável, alienado, assassino”.

Aí vem a própria OMS declarar que a nova frente de contágio está se dando dentro de casa e que as autoridades de saúde têm agora que identificar os infectados no interior das suas casas para que eles possam ser isolados dos seus familiares e aí finalmente oferecer ao mundo a tão esperada suavização do surto. Você notou como está tudo absolutamente sob controle?

Eles só não demonstram essas premissas, estratégias, de forma científica porque eles não querem cansar a sua beleza. Eles têm certeza que você prefere ouvir um bom discurso e ir dormir tranquilo sabendo que está tudo bem. Mas têm sempre meia dúzia de chatos que não gostam de discurso e esses já notaram que os efeitos do confinamento total sobre a evolução da epidemia não estão sendo demonstrados numericamente. Ou seja, eles permanecem como uma hipótese.

Fique em casa porque tem um vírus lá fora e ponto final.

Talvez pensando nisso, o Governo de São Paulo resolveu inovar e ofereceu à população um modelo matemático pioneiro, montado no fundo do quintal de algum boteco fechado. João Dória governador disse que se a quarentena não atingir 75% da população, e veja a precisão, em 15 dias, a rede hospitalar não terá mais leitos para atender os infectados, ou seja, iminência de colapso. Um dia depois, esse alerta reapareceu com um dado de 70% de confinamento necessário versus 75% na véspera, sempre segundo os especialistas.

Deve ser um modelo móvel e, com certeza, um modelo revolucionário, porque nem a OMS e nem cientista nenhum no mundo montou uma fórmula partindo do percentual de confinamento e estabelecendo a sua correlação com a progressão exata da epidemia, o número de vulneráveis infectados e a consequente expansão da demanda por leitos. Um cronograma tão preciso que possa ser aferido semanalmente. No mínimo vem um prêmio Nobel aí.

Nesse meio tempo, a rede de TV CNN noticia que a cidade de Manaus, no norte do Brasil, também está na iminência do colapso, já está em colapso na verdade, a rede de saúde, e que já está com dificuldade para enterrar os seus mortos.

O número de mortos por coronavírus na cidade de Manaus até hoje é de 42 pessoas.

Bom, talvez esse seja o jornalismo na linha daquele que mostra as covas abertas em São Paulo para dizer que o Brasil não tem mais onde enterrar os seus mortos. Ou a gente está diante de uma mortandade clandestina ou a gente está diante de um jornalismo fúnebre.

Um outro dado de coincidência é que o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que é a fonte dessa informação sobre o colapso e dificuldade de enterrar mortos, é do mesmo partido do governador João Dória. Os dois, por sinal, antes da chegada do vírus trabalhando contra as reformas e contra a agenda de reconstrução do país, mas isso é só uma coincidência.

Bom, voltando a São Paulo, junto com o modelo matemático inovador, o governador fez o que vários outros governadores e prefeitos do país estão fazendo, ameaçou prender o cidadão na rua. E essa ética da boçalidade já está em prática em vários pontos do território nacional com cenas edificantes e civilizatórias de policiais capturando passantes, inclusive mulheres, várias delas tratadas de forma animalesca à luz do dia, sob o silêncio protetor dos humanistas que estão calados em casa assistindo a novela do vírus. Ou seja, não está sendo só gestada uma ruína proverbial com tudo trancado e a vida adiada indefinidamente.

No Brasil, já foram fechadas 60 mil pequenas empresas.

A estimativa atual para o PIB é de uma queda de 4%. Ruína. Depressão à vista. Empobrecimento geral. Mas não é só isso, a população também está entregando a sua liberdade de bandeja a tiranetes com propósitos inconfessáveis de poder. O mesmo Dória supracitado está usando operadoras de telefonia para vigiar os passos dos seus reféns.

Bom, eles estão dizendo que estão salvando vidas e vocês, por alguma razão insondável, estão acreditando nisso.

Guilherme Fiuza (@GFiuza_Oficial no Twitter)

 

Guilherme Fiuza é jornalista e escritor best-seller

 

Leia também as medidas do governo Dória que “auxiliam” os paulistas mesmo que você não more por aqui. Afinal, tem muito governador copiando. Clique aqui para conferir.

 

Jornalista, especialista em finanças e autora de 5 best-selleres. Colunista do portal R7 e apresentadora do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

    • Eu sou a favor de que não se aproveitem da quarentena para fins politicos e que não disseminem pavor fabricando restrições desnecessárias e sem fundamento. Sou a favor de uma quarentena com equilíbrio, como houve na Coreia do Sul com excelentes resultados.

  • Realmente é revoltante ver tudo isso que está acontecendo e muitos ainda saem bem na mídia quando na verdade estão afundando o país.

  • O pior é se sentir de mãos atadas, pois não podemos fazer nada, ou podemos?

    Se abro a boca pra falar que sou contra o lockdown, sou tida como louca, irresponsável. “Quero ver quando um ente querido seu, vier à óbito” é o que eles dizem.

    O jeito é orar, pedir a Deus que em sua grandiosa bondade, nos ilumine.

  • Caríssima Patrícia.

    Como não ser grata por toda a ajuda, benfeitoria mesmo, que vc sempre vem passando através de seus posts aqui?
    Realmente irretocável o post do admirável jornalista Guilherme Fiuza que agora resume absolutamente tudo o que se precisa saber a cerca da realidade em que estamos inseridos.
    Mas de minha parte, vc continuaria postando aqui acerca desse assunto e de quaisquer outros que achar relevante. rsrsrsrsrsrsrs
    Só temos a agradecer por tudo.
    Abç

  • Oi Paty. Eu tenho buscado me manter informada dentro do meu limite de equilíbrio mental. Realmente está complicada a situação, pq eu não sei mais em quem acreditar. Sou farmacêutica e sempre amei a área da ciência. Entendo que, diante de algo novo, sempre vai existir o famoso “tentativa e erro” em ação. Não existe outra fórmula. Eu tenho procurado não manifestar minhas opiniões nem com amigos/parentes, exatamente pq sigo a filosofia de Sócrates: “A única coisa que sei é que nada sei” e vou confiando em Deus. Como vc falou do modelo da Coréia do Sul que tem dado certo, eu (e talvez diversos outros seguidores seus) desconheço esse modelo. Será que não valeria a pena falar dele? Apesar de sermos dois países totalmente diferentes, quem sabe…?

  • Enquanto Rio e São Paulo continuarem nessa disputa de quem estica mais a quarentena, todo o resto do país vai no mesmo barco. Também sou a favor do isolamento com equilíbrio, pois do jeito está, estamos encaminhando pra ruína. Encontraram um jeito de controlar e manipular o povo, provocando o caos (engraçado que, quando acontece realmente algo importante, sempre não vemos o Governo querendo controlar a informação pra não provocar o caos). A grande questão é que quando o brasileiro acordar, o estrago já estará feito.

  • Ótima análise. Incrível como até uma situação dessa os políticos tiram proveito.

  • Acabei de perder um amigo porque ele manteve a sua loja aberta e pegou o COVID-19. Se ele tivesse ficado com a loja fechada talvez ainda estaria vivo.Ele era jovem ainda e cheio de saúde. E tinha condições de ter o melhor tratamento e teve.Nao morreu em hospital publico porque tinha um dos melhores planos de saúde. Ele pensava como muitas pessoas que é exagero e que a economia é importante e tem que andar junto com a saúde. E ficou com o estabelecimento aberto até que essa semana sentiu-se mau e o irmão o levou para o hospital e em poucas horas o estado dele se agravou e ele veio a óbito. E meu amigo se foi sem velorio,caixão lacrado e a família não pode ver seu rosto pela ultima vez.A missa de setimo dia será pela internet e não poderemos,como não pudemos oferecer o calor e o conforto do nosso abraço a família. Talvez muitoz de vocês que estão achando exagero,politicagem e sensacionalismo não tenham perdido alguém próximo a vocês e eu peço a Deus que isso nunca aconteça a nenhum de vocês. Porque é muito triste perder um amigo e mais ainda perder um pai,um tio,um irmão uma pessoa que vai faxer muita falta como meu amigo está fazendo para a sua família. Por isso eu sou a favor sim do isolamento social. O Brasil é um país solidário e se o governo está fazendo a sia parte,muitas pessoas que podem estão fazendo o que podem pelos necessitados.Eu temo por aqueles que moram nas comunidades e que não podem ter a menor condição de higiene porque falta agua e elas tem que ficar juntas e misturadas pois não tem como terem um isolamento nem vertical e nem horizontal.Mas essa doença não distingue pobre nem rico e muito menos sexo ou idade.A mais nova vitima dela aqui no Rio de Janeiro é uma jovem de 17 anos que morava em Duque de Caxias onde o prefeito pensou que tudo isso era exagero e agora ele mesmo está doente depois de ser o ultimo prefeito a decretar o isolamento social.Respeito a opinião de todos,mas também não posso deixar de expor a minha ainda mais tendo perdido um amigo tão querido por causa da COVID-19.

    • Oi, Lenira
      Sinto muito pelo seu amigo! É preciso ter cautela. Não é à toa que existem as precauções e é uma pena o seu amigo não ter tomado. Que Deus conforte o coração da família.

  • “Pretendo que o texto do Fiuza seja o último sobre quarentena, pandemia e afins aqui no blog.”

    To nessa vibe também, Paty!

    Aliás, comentário meio esquisito mas vamos lá: trabalho em banco público, num departamento aonde muitos colocam a política acima de tudo. A política regendo suas vidas. Aquele tipo que quer saber em quem você votou para saber se pode fazer amizade com você, se você está validada aos olhos dele para ser sua amiga, rs, ou é uma inimiga potencial, rs.

    Eu nunca tive tanta qualidade emocional, mental, paz interior como agora. Parar de conviver com meus “colegas de trabalho” foi a melhor coisa nessa quarentena. Portanto, sendo da turma privilegiada que pode ficar em casa, confesso pra você: espero continuar em casa após a pandemia e até encontrarem a vacina.

    Mas, sou a favor de abrirem tudo desde que as pessoas usem máscaras e sejam autorresponsáveis, coisa que não é muito comum no Brasil. Tava mais que na hora de termos um evento aonde mostrasse que as pessoas precisam ser responsáveis por si mesmas. Eu uso máscara para me proteger e para evitar que o próximo se contamine. Há pessoas que querem que as outras usem máscaras, enquanto elas não.

    Espero que as pessoas concluam por elas mesmas: que ir e vir é um direito, que seu voto é importante, que guardar dinheiro não é coisa de mão de vaca, que saúde é um bem que precisa ser cuidado antes de ser um direito, que a vida de mentira que foi construída pra mostrar por outros, uma hora cai por terra. E, por fim, que precisamos ter um plano B, C, D pra depois que tudo isso terminar porque os políticos não estarão preocupados que você reconstrua sua vida, a não ser que seja pra pegar um empréstimo no banco para recomeçá-la.

    • Bem isso, Adri. Não estou nem “circulando” muito pelas redes sociais porque a coisa virou um fla-flu que deixa qualquer um mal humorado. Eu estou saindo o mínimo possível para resguardar a minha saúde física sim, mas principalmente a mental!

  • Neste momento tão difícil para a sociedade, vemos os governantes que antes de se elegerem dizia que iria ajudar o povo. Hoje se tornaram ditadores do povo e pensando em seus próprios enterresse . Mas é bom, porque tudo isso vai ficar registrado. Caibe a nós ursarmos nossa força nas próximas eleições. É quando o discurso muda…

  • Olá, Patrícia! Tenho aprendido muito com seus conteúdos. Se possível, gostaria de tirar uma dúvida que não quero expôr aqui no blog. Como faço pra te enviar?

  • Patrícia, tudo bem?
    É a 2ª vez que leio esse texto. A 1ª vez eu não entendi mas deixei quieto pq andava muito nervosa com as notícias. Dessa 2ª vez estou lendo menos notícias e, por estar mais calma, resolvi reler suas postagens pra absorvê-las melhor e confesso que não entendi qual a proposta do Guilherme.
    Lembrei duma passagem bíblica em que Deus expõe o problema e dá uma solução:
    Problema: “Não é bom que o homem esteja só”
    Solução: “Façamos para ele uma companheira”

    Se eu entendi direito, o Guilherme aponta um problema: “Os mapas comprovando o efeito mitigador do confinamento geral sobre o número de infectados, de internados e de mortos não existem.”
    E a solução? Ainda que não seja rápida ou fácil (como não somos deuses obviamente não temos soluções simples e imediatas). O que ele propõe no artigo que seja feito diferente do que estão fazendo?
    Entende minha dúvida?
    Muito obrigada

    • Entendo sim, Liliane. Repostei o texto dele justamente porque faz as pessoas pensarem e chegarem à conclusão de que a resposta não é simples, porém, o problema maior está sendo causado por um governo que cuida dos próprios interesses e não os do povo. Eles não apresentam nenhuma solução. Atualmente dizem que a quarentena não resolveu e que a solução está em ampliá-la. Será?

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