Muitos funcionários têm os “seus direitos” na ponta da língua, porém, na hora em que são cobrados sobre seus deveres, acham-se injustiçados.

 

Os perigos dos “seus direitos”

Sempre que entramos no assunto de direitos e deveres, especialmente sobre direitos trabalhistas, várias polêmicas se formam.

O objetivo deste post não é polemizar, mas sim, mostrar um ponto de vista que, talvez, muitos funcionários não tenham considerado.

Certamente não é um tema popular e não receberei elogios…

Mas o intuito do nosso Desafio da Disciplina é fazer pensar, então, vamos em frente!

 

Um leitor aqui do blog comentou que trabalhou em uma loja onde o proprietário trocava toda sua equipe de vendas a cada 24 meses.

Cabia ao leitor demitir as pessoas e, obviamente, isso o incomodava bastante.

Porém, o dono da loja lhe disse um dia que, por mais que aquilo parecesse ruim, mais tarde ele entenderia o porquê.

E assim foi.

Passados alguns anos, o nosso leitor percebeu que as novas equipes vendiam mais, que o clima da empresa mudava para melhor e que aquelas demissões e novas contratações faziam o negócio crescer.

Mas, por quê?

Porque inicialmente as pessoas chegam com todo o gás, cheias de vontade de fazer a diferença, gratas por terem recebido a oportunidade de trabalhar dignamente e receber uma remuneração em troca de seus talentos e tempo.

Mas, com o passar dos meses – e olha que estamos falando de apenas 2 anos – as pessoas esquecem do que as motivou no início e acham que “seus direitos” as autorizam a…

  • …fazer corpo mole
  • …não lidar as pessoas (clientes, fornecedores, superiores) como sabem deveriam fazer
  • …achar que o que recebem é sempre menos do que merecem
  • …usufruir até mesmo daquilo que não é delas

 

“Isso não é justo!”

Certa vez, quando trabalhei no RH de uma empresa, uma funcionária voltou de férias e, assim que recebeu o contracheque, veio ao nosso balcão indignada:

“Alguém pode explicar por que o meu pagamento está zerado?”

Expliquei que ela havia recebido o salário daquele mês adiantado, antes de sair de férias.

Além disso, como manda a CLT, ela havia recebido também um terço do salário como abono de férias.

Quando ela soube que só voltaria a receber o pagamento normal no mês seguinte, começou a gritar descontroladamente:

“Você é louca? Eu quero o meu salário! Eu conheço os “meus direitos”! Você acha que eu vou trabalhar de graça, menina?”  

Expliquei novamente que, antes de sair de férias, ela recebeu dois salários: o do mês trabalhado antes das férias e o do mês em que ela esteve de férias, de forma adiantada.

Mostrei o valor que ela recebeu antes das férias, mas ela não compreendia, afinal, para ela, férias significava ganhar um salário sem trabalhar e, na volta, ainda ter mais um.

Ela exigia “seus direitos” sem raciocinar que ninguém ganha nada de graça no mercado de trabalho. Ninguém! O que inclui você e eu (e ela também!).

“Isso não é justo”, esbravejava a moça. “Agora com quê eu vou pagar tudo o que gastei na viagem?”

 

Seus direitos ou suas ilusões?

Quando alguém aposta o seu próprio dinheiro, suas energias e seu conhecimento para abrir um negócio, quais são os seus direitos?

Pense e responda:

  • O empreendedor tem direito garantido a obter lucro?
  • Ele tem o direito de dizer ao governo que só pagará impostos se o negócio der certo?
  • Está entre os seus direitos o de não pagar suas contas caso os clientes deem calote?
  • Se um funcionário quebra um maquinário ou equipamento, o governo lhe garante a substituição ou conserto para que ele não tenha prejuízo?

Não, ele não tem nem um direito sequer, mas precisa cumprir mais de uma centena de regras e recolher uma série de impostos ainda que não tenha um centavo de lucro.

E se ele contrata um funcionário, quais são os direitos que esse funcionário tem desde o primeiro dia?

  • Receber o salário acordado haja lucro ou não;
  • Ter férias garantidas depois de 12 meses de trabalho;
  • 13º salário proporcional no fim do ano;
  • Se quebra algum equipamento da empresa, não pode ser descontado;
  • Se for demitido – ainda que por má conduta – receberá uma indenização, ou seja, um prêmio em dinheiro.

Por conta disso, antes de contratar um funcionário, o empregador vai fazer as seguintes contas:

Se ele conclui que pode pagar R$ 36 mil por ano para esse funcionário, não vai dividir por 12 meses e pagar um salário de R$ 3 mil.

Isso porque ele sabe que terá de pagar o 13º salário.

E também não dividirá por 13, para pagar um salário de R$ 2.770, pois sabe que terá de pagar 1/3 de férias e ainda arcar com o salário de um funcionário temporário para cobrir os 30 dias de ausência.

Nem tampouco dividirá por 14, para pagar um salário de R$ 2.570, pois terá de pagar 100% de ônus (impostos) sobre o salário do funcionário.

Logo, o salário que poderia ser de R$ 3 mil, por conta dos “seus direitos”, será de R$ 1.285.

E, para que o funcionário receba um salário bruto de R$ 1.285 (sobre o qual também pagará uma batelada de impostos), o empreendedor vai desembolsar os R$ 36 mil por ano que calculou inicialmente.

Para o bolso do trabalhador irão cerca de R$ 15.850 por ano e, para o governo, mais de R$ 20 mil.

Entendeu agora porque o governo se mete tanto na iniciativa privada?

Os “seus direitos” proporcionam receita a um Estado que, em quase tudo, é ineficiente e não devolve aos cidadãos o equivalente ao que é pago em impostos.

Enquanto as pessoas não entenderem que o problema deste país não são os “empresários malvadões”, mas um sistema que beneficia a si próprio, não cresceremos o quanto poderíamos.

Será que os “seus direitos” são tão reais quanto você pensava?

Pense, reflita e faça as contas.

Nos vemos!

 

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Jornalista, especialista em finanças e autora de 5 best-selleres. Colunista do portal R7 e apresentadora do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

  • Bom dia Paty, ótima explicação sobre esse assunto, ao qual ,muitas vezes só enxergamos o lado do fúncionário. Deus a abençoe.

  • Bom dia Patrícia!
    Trabalhei a maior parte da minha vida para empresários.
    Quando comecei a entender estas contas ficava indignada com o povo que enrolava no trabalho e ainda mais quando fui trabalhar em RH e faziamos o mapeamento do quanto rendia cada funcionário, aí era pior ainda.
    Sempre achei que todos deveriam prestar serviços, serem autônomos, assim iriam dar valor.
    E quando eles eram dispensados e diziam: “vou colocar no pau”. Misericórdia.
    Alguns empresários não trabalham dentro da lei e tbem passei por isso, mas apesar de saber do erro até entendia, pois o Sistema, ahh o Sistema.
    Beijos.

    • E o brasileiro acha que “lá fora”, em outros países, existem direitos trabalhistas. Quando a gente fala que não existe nada disso, geralmente não acreditam. Mas, aproveitando, como vcs faziam esse mapeamento de produtividade? Bjs

  • Bom dia querida! Ontem comentei aqui no Blog que eu tinha a incumbência de fazer demissões no setor que eu era responsável, pois bem, eu demitia aquele que ñ vestia a camisa da Empresa e poderia ser meu melhor amigo. É muito complicado ter uma empresa hj, pois além de muitos encargos, os funcionários são um amorzinho quando vão te pedir uma oportunidade, mas depois…. lá vem problemas 🤗🤗

  • Bom dia Patrícia, Tudo que você falou é uma grande verdade , porém o nosso trabalhador ele não tem instrução suficiente para entender esse sistema de trabalho. Os nossos governantes tem que investir mais em educação dês do início da caminhada educacional, caso contrário iremos está sempre atrás , e esses trabalhadores cobrando sempre os seus direitos e os deveres eles nem querem saber, parabéns pelo seu trabalho. Eduardo

  • Bom dia Patrícia.
    Obrigada por esclarecer os nossos direitos e deveres.
    Uma abençoada semana pra vc e sua família.

  • Bom dia, Patrícia. De fato, nós temos um sistema governamental que mais parece sanguessuga. E realmente, a maioria dos trabalhadores desconhecem a realidade, pois o governo não ensina sobre essas coisas, mas induz às pessoas sobre “seus direitos”, dessa forma, ele sai do foco e transfere a insatisfação dos empregados para seus patrões. E falando sobre consciência, de ser um bom funcionário, e cumpridor de seus deveres também e não somente um cobrador de “seus direitos”, infelizmente, não são poucos os que agem assim, daí eu lhe pergunto; como mudar essa realidade? Uma das formas, é o que você está fazendo, trazendo esse conhecimento, mas ainda assim, acaba sendo uma escolha de cada um, se conscientizar ou não, e cobrar os direitos de quem realmente deve ser cobrado. Gostaria de deixar um versículo bíblico em que Deus diz “Meu povo foi destruído por falta de conhecimento…” (Oséias 4:6) e ainda outro “É muito melhor conquistar a sabedoria do que o ouro puro. É mais proveitoso obter o entendimento do que a prata mais valiosa.” (Provérbios 16:16)

  • Patricia todas as empresas que eu passei eu vi esse mesmo problema.

    Funcionários antigos são os piores.

    Não estou generalizando, pois cada um é que sabe de si, mas eu via os funcionários antigos de conversa fiada, qualquer probleminha que surgia colocava baixa, faltava, fazia o mínimo possível daquilo que era esperado, vai no banheiro e fica ali horas pra passar o tempo, uso das redes sociais no horário de trabalho, a cada 5 minutos param pra fumar e beber café… olha é cada absurdo que eu ja vi.

    E na primeira empresa que trabalhei eu também cometi esse erro, eu tinha apenas 14 anos.

    No início era toda humilde, obediente, dava o meu máximo, depois de alguns anos, comecei a ser rebelde, não estava nem aí pra nada, era grossa com os clientes e chegou um ponto que até começei a desviar dinheiro da empresa.

    É uma vergonha escrever isso aqui o que eu fazia, mas é a verdade.

    E depois de alguns anos no mercado de trabalho, percebi esse comportamento na maioria dos funcionários antigos, não apenas aí no Brasil, mas aqui em Portugal também.

    É muito fácil exigir e cobrar os nossos direitos, mas se colocar no lugar do outro, ver o lado do empregador, poucos fazem.

    Não é fácil manter uma empresa.

    A situação por aqui também é a mesma: muitos empresários não estão podendo trabalhar, mas os compromissos com o estado continua, precisa ser pago! e de onde esses empresários tiram dinheiro?

    Essa é a questão!

    grande abraço Diva.

  • Boa tarde!!
    Era uma indústria de alimentos, mas lembro que uma vez fui avaliada administrativamente, faz tempo, em!! Em São Paulo.
    Era uma fábrica em Rio Preto, trabalhei por 7 anos , tínhamos uma engenheira de alimentos fera no assunto e ensinou como fazer através de planilhas.
    Como tínhamos diversas máquinas, com diversos funcionários e cada um deles tinha um ritmo de produção. Bastava acompanhar as horas e minutos de trabalho de cada um em cada máquina. Em seguida, com as informações do relatório era só anotar na planilha do Excel e fazer o gráfico de cada um. Era principalmente para o rodízio de funções, por conta da LER.
    Lógico que era uma média, mas o fato é que dava para perceber qual funcionário rendia mais e qual rendia menos em determinada função. Isso era matemático, parte do trabalho era feito por humanos e sabíamos na prática o porque de alguns desempenhos serem piores que os outros, pois condecíamos as “pessoas”.
    Espero que tenha dado para entender, fazem mais ou menos 10 anos que isso aconteceu, mas se precisar faço contato com a nossa engenheira que, por sinal excelente teacher . Sempre grudei em pessoas que somam.
    Beijos.

  • Gente, que doida essa funcionária kkkkk, ela não conhecia nadinha de nada dos seus direitos rs

  • Olá Patrícia, boa tarde! Com relação a equipe de vendas que era substituída a cada 24 meses, percebo duas questões: 1) o dono da loja, possivelmente era um “gato escaldado que, como diz o ditado popular, tem medo de água fria” e, sendo esse dono já experiente em lidar com os vendedores desse tipo de negócio, optou por se prevenir de ações trabalhistas por parte daqueles que, com o passar do tempo de serviço se acomodavam e já não faziam seu trabalho com tanto empenho e, julgavam ter mais “direitos que deveres”. 2) entendi o incômodo sentido pelo responsável por executar a árdua tarefa das demissões. Ele também era um empregado da loja como os vendedores e, não se posicionava do outro lado da mesa, não enxergava as artimanhas do ramo, não tinha a visão de dono que era o responsável por colocar a mão no bolso para pagar as contas dos “direitos” que poderiam ser reivindicados em eventual ação trabalhista. Não é confortável ter essa visão, porém é a realidade da vida cotidiana. Com relação aos questionamentos relativos ao empreendedor, respondo negativamente para todas as suas perguntas, pois também tenho ciência de que é exigido que dele o cumprimento de muitas dezenas de regras e recolhimento de impostos. Aliás, para fins de arrecadação dos impostos, o governo criou o “Simples Nacional” que, “simples” é só o nome e, nesse momento, não cabe adicionar comentários (rs…rs…). Tendo a pensar em empreender e, embora haja tantas exigências que até reduzem o ânimo, estou planejando algo para partir para a ação ainda em 2021. Acrescento o que está em João 16,33 “Tenho-vos dito isto, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.” Abraços!

  • Boa tarde Paty, já me sinto íntima rsrs, por ser leitora assídua do blog, seguir o Insta, que você sempre responde quando pergunto e sou inscrita no canal do Youtube, participo do Clube da leitura todos os domingos.
    Eu havia feito essa conta ano passado e sugeri ao meu patrão que eu abriria um MEI e ele me pagaria a diferença, que pagaria para o governo, mas ele “prefere” assinar minha carteira, o que ainda não fez.
    Vou tentar mais uma vez esse acordo, pois não tenho interesse em ter a carteira assinada e receber com descontos o que hoje já é um salário defasado.
    Abs.

  • Cadê os direitos dos que tem boletos todos os meses mesmo na Pandemia mesmo sem emprego? Temos mesmo são os deveres de pagá-los, isso sim. Falta mesmo é nós buscarmos conhecimento sobre tudo.

  • Sim, esse post merece elogios!!!
    Essa falta de esclarecimento, ou o real desinteresse em não compreender, são razões de existirem tantas pessoas cheias de direitos e sem praticamente “nenhum” dever.
    E em nome de não perder os tais “direitos”, não cumprem os seus deveres e ainda atrapalham a quem deseja cumprir.
    Muito bom!

  • Olá Patrícia!
    O pior de tudo é quando o funcionário fica tirando a maior “onda” na empresa para ser demito e ganhar os seus direitos, atrapalha quem quer trabalhar e chega até prejudicar a empresa. Não consigo entender porque a pessoa não estar satisfeito com o trabalho e não entrega sua carta de demissão, ficam preso a uma indenização, quanto poderiam ter economizado e feito uma reserva justamente para esse momento, preferem levantar todos os dias angustiado por ir trabalhar, se martirizando, murmurando para os colegas de trabalho, sendo influenciador para quem estar trabalhando bem, parece uma fruta podre, apodrecendo tudo. Na segunda empresa que trabalhei, tive que pedir demissão porque não aguentei uma funcionaria antiga que estava para se aposentar e a empresa não podia demitir (eu não sabia que existia esse direito também), como ela estava no meu setor e ninguém queria ela nos outros setores, a direção não pode fazer nada, eu, quando entreguei minha carta de demissão comprei minha paz. Mas ela estava no direito dela, só não deixava os outros trabalhar, só isso!

    Grande abraço.

  • Bom dia, Patrícia,
    Excelente texto! Hoje eu trabalho na administração, ou seja, arregalo os olhos com a quantidade de impostos pagos pelos meus patrões…. e fico indignada com comentários de “meus direitos, meus direitos!”.
    Como a Palavra diz, em Oséias 4:6: “O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento”.
    Seria interessante que ao receber o contrato, o novo Colaborador recebesse o versículo acima como um marcador de textos, ou a próprio como decalque em seu crachá!!

  • Boa Tarde Patricia, excelente seu post!!

    Imposto é um sutil nome que se dá ao confisco da nossa renda que somos submetidos diariamente, mensalmente, anualmente…..
    Paga-se imposto pra tudo, pra comprar um livro, pra vender um livro, pra ter um teto, pra ter um investimento, pra ter automovel ou uma bicicleta, nada é isento.
    Somos a base de uma pirâmide que sustenta o topo com o sacrificio do que nos é confiscado.
    Os direitos só existem pra quem está no topo, que mora nos palácios de Brasilia, pois quem está na base e mora nas palafitas só tem direito ao voto.

  • Boa noite, Patrícia!

    Parabéns pelo texto!
    Lembrei-me de um Gestor que dizia: “as pessoas querem Emprego, mas não querem trabalho.”

  • Eu sabia, mas não sabia. Eu não fazia ideia dos detalhes. Esse post é o mais sensacional que já li.

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