Brasil está na lista dos trinta países que mais arrecadam impostos, mas o retorno ao cidadão é bastante desproporcional. Entenda a urgência de uma reforma tributária

Impacto da carga tributária no bolso do brasileiro

 

A tributação de impostos no Brasil não incide apenas sobre a renda, mas também sobre o consumo.

Significa que, de todo dinheiro que recebemos (salário, faturamento ou lucro) são descontadas diversas taxas e, em todos os produtos que compramos ou serviços que contratamos, há impostos embutidos.

 

Para ilustrar o impacto dos impostos sobre os salários, acompanhe o exemplo abaixo considerando a remuneração média nominal (salário bruto) no Brasil.

 

Para um salário de R$ 2.261,00, o trabalhador terá retido na fonte 12% de INSS, 7,5% de Imposto de Renda (com dedução de R$ 142,80) e, caso seja optante de vale transporte, outros 6%, reduzindo o montante a um salário líquido de R$ 1.847,60.

 

Além do imposto pago pelo trabalhador, a empresa também terá de arcar, em média, com cerca de 100% de ônus sobre o salário, considerando custos diretos (impostos) e indiretos (como provisão de encargos e indenizações trabalhistas).

Logo, para que o funcionário receba menos de 1.850 reais, a empresa desembolsa mais de 4.500 reais.

 

Com respeito à tributação do consumo, os cálculos já são bem mais complicados. Para além das cargas exorbitantes de impostos e taxas, há uma legislação altamente complexa.

Enquanto grandes empresas contam com departamentos inteiros para poderem lidar com um sistema tributário que gera muita confusão e inúmeros questionamentos judiciais, as pequenas acabam trabalhando no esquema de tentativa e erro, o que pode ocasionar um sem-fim de dores de cabeça.

Taxação sobre consumo

 

A taxação sobre o consumo no Brasil é muito mais alta do que em outros países porque, por aqui, há diversos impostos incidindo sobre cada etapa da cadeia produtiva.

No final, claro, soma-se tudo e o consumidor paga a conta.

Trata-se de um acúmulo progressivo de impostos – como ICMS, IPI, PIS/Pasep, Cofins e ISS – que colocam o país na lista dos trinta maiores arrecadadores de impostos.

Porém, quanto ao retorno, estamos sempre nas últimas posições, quer seja em saúde, educação ou serviços.

 

A título de exemplo, no estado da Flórida, nos Estados Unidos, a taxação de qualquer produto é de 7%, seja uma barra de chocolate, um carro ou um celular.

Já no Brasil, os impostos variam de acordo com o tipo e origem de cada produto.

Os chocolates têm 39% de impostos, enquanto os carros nacionais têm de 48% a 55% e os importados podem ultrapassar os 78%, dependendo do modelo.

Tudo devidamente embutido no preço que o consumidor final paga.

 

Para se ter uma ideia de como as importações são complicadas, imagine que você queira importar um celular de US$ 400 por conta própria.

Nesse caso, terá que desembolsar mais de 4.000 reais, pois, além dos 60% de imposto de importação, é preciso arcar com o frete e o seguro.

Digamos que o frete seja de 50 dólares e o seguro saia por US$ 20.

O total de US$ 470 deve ser convertido em reais, o que daria R$ 2.505,10 na cotação de hoje (R$ 5,33). Sobre esse valor incidirão os 60% de imposto (R$ 1.503,06) elevando o custo final do produto a incríveis R$ 4.008,16.

 

Mas, apesar das altas taxas e de um sistema tributário extremamente confuso, o que a indústria, o comércio e os consumidores em geral mais reclamam não é necessariamente de ter de arcar com os custos, mas sim, da falta de retorno pelo preço que se paga.

 

O Brasil precisa de uma reforma tributária urgente, mas que seja inteligente, facilite a vida de quem recolhe e seja justa com quem paga.

E, principalmente, que só pense em considerar alíquotas de primeiro mundo, quando passar a oferecer educação, saúde e serviços de primeiro mundo.

 

Nos vemos!

Jornalista, especialista em finanças e autora de 5 best-selleres. Colunista do portal R7 e apresentadora do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

  • Excelente assunto! Porém poucas pessoas tentam entender, discutir ou se importar com esse assunto, acabam ficando conformados e ciclo todo se repete.

  • Realmente os impostos cobrados aqui são muito altos, para um país que não oferece educação e saúde de boa qualidade. Isso sem falar em segurança. Aí fica uma pergunta no ar: Pra onde vai tanto dinheiro arrecado com impostos, num país continental como o Brasil, se a nossa educação e saúde são tão de má qualidade? É uma coisa pra se pensar e refletir muito bem, ao fazer nossas escolhas de candidatos políticos.

  • Semana passada na live do Lacombe o Caio Copolla estava falando sobre esse assunto: o Brasil arrecada impostos como país de primeiro mundo e devolve para a sociedade serviços de terceiro mundo. Tem coisas no Brasil que são revoltantes.
    Estou adorando seus posts aqui no blog e no R7. Parabéns!

    • Também assisti e dá muita revolta. Vamos ver como será a reforma apresentada pelo Paulo Guedes. É só o começo, mas precisamos seguir em frente!

  • Bom dia, Patricia!
    Observo com tristeza este cenário, desde sempre!
    E me entristeço mais ainda porque, com tudo o que está acontecendo nesses dias, com o desespero da população “sendo obrigada a ficar em casa”, ainda inventam punições para quem precisa sair para trabalhar, apavoradas com medo de perder seus empregos!

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