Imagine um reino onde cidadãos de bem são presos em casa, mas bandidos são soltos, onde a mentira tem mais crédito que a verdade e o medo supera a liberdade. Que tal viver lá?

“Fakeland”, você moraria lá?

Na Fakeland as coisas são feitas às avessas, mas seus cidadãos parecem não se incomodar. Os fakelanders, moradores dessa terra distante, são seres fascinantes, pois têm um alto poder de adaptação e são dotados de cérebros com uma capacidade tamanha e cheios de segredos que nem mesmo os mais sábios estudiosos conseguiram desvendar.

 

Porém, em contrapartida, os fakelanders costumam subestimar a si mesmos e a maioria deles não consegue compreender o quão fantásticos são. Eles têm corpos incríveis, mas muitos não dão o menor valor, expondo-se a situações perigosas, ridículas e até mesmo vulgares. Eles acham que isso é liberdade.

 

E, falando em liberdade, os fakelanders realmente têm dificuldade em compreendê-la.

Para alguns, faz sentido que os príncipes do reino – os quais eles detestam – ditem o que podem ou não fazer. Eles obedecem à risca, mesmo que a ordem seja para ficarem presos dentro de casa e serem impedidos até mesmo de trabalhar. E tem mais: não é porque não estão trabalhando que serão liberados de pagar seus impostos. Na Fakeland, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

 

Os príncipes sempre quiseram manter os fakelanders sob controle total, mas até um tempo atrás, eles eram rebeldes e não davam ouvidos aos desmandos dos monarcas. Agora, porém, eis que surge um aliado infalível para que o plano viesse a dar certo: o medo. É certo que os fakelanders sempre conviveram com o medo, pois o reino é violento, cheio das mais diversas doenças e de todos os tipos de perigo. Mas tem coisas que eu ainda não disse sobre os fakelanders: eles têm memória curta e são altamente influenciáveis.

 

Certo dia, foi divulgado que havia surgido um inimigo maior do que todos os demais – ainda que não fosse – e que todo mundo poderia morrer por conta dele – ainda que tenham deixado escapar que a mortalidade era baixa. De qualquer forma, os fakelanders não se apegam a detalhes. A solução para manterem-se vivos seria abandonar todos os afazeres, planos e objetivos de vida e ficar dentro de casa por tempo indeterminado. É claro que os fakelanders não acreditaram logo de cara, pois não havia nenhum consenso entre os sábios. Porém, de tanto repetirem a mesma coisa aumentando cada vez mais os apelos emocionais, os fakelanders não resistiram.

 

A combinação de medo e emoção em doses cavalares foi realmente eficiente!

Mesmo diante de pesquisas comprovando que quem ficou em casa adoeceu tanto ou ainda mais do que os rebeldes que teimavam em circular, os fakelanders continuaram dentro de casa repetindo um mantra que lhes trazia sensação de bem-estar. E, claro, em nome do bem-estar da população, milhares de presidiários condenados foram soltos porque a justiça do reino – ainda não defini por qual motivo – decidiu soltá-los para que eles também ficassem em suas casas, mesmo sabendo que eles não fariam isso.

 

O poder de persuasão dos príncipes e seus aliados é impressionante, afinal, ao mesmo tempo que eles afirmam que todo o controle imposto é para a segurança de todos, soltam os bandidos mais perigosos sabendo que eles irão aterrorizar o reino e colocar a tal segurança de todos em jogo.

 

Eu sei que está confuso, mas lembre-se que trata-se de uma ficção e ainda não chegamos ao fim. Além disso, conto com a licença poética para justificar algumas incongruências na história, como esta: primeiramente o tal inimigo mortal atacava todos os dias da semana, durante as 24 horas do dia. Mas, como os fakelanders começaram a reclamar que estava chato não poder sair para nada, os príncipes decidiram afrouxar um pouco o controle. Para isso, começaram a divulgar que em alguns horários do dia o inimigo dava uma trégua. Logo, eles podiam ir a alguns locais que os príncipes classificaram como “seguros” e em horários aleatoriamente por eles determinados.

 

Era assim: os fakelanders podiam ir até a restaurantes, desde que se comprometessem a não permanecer em nenhum deles após as 22h.

De tão entorpecidos pelo medo, os fakelanders acreditaram, sem argumentar, que jantar até as 21h59 não lhes traria nenhum risco, mas se passassem disso, estariam abusando da sorte. Sim, sorte. Afinal de contas, para quem ficou preso durante meses é uma sorte ter príncipes tão benevolentes que lhes permitam sair de casa, ainda que seja sob todo esse controle.

 

Não sei se esse conto resultaria em um bom livro ou, quem sabe, renderia um filme. Em todo caso, vou continuar trabalhando nele para ver no que dá. O que sei até o momento é que ninguém em sã consciência gostaria de viver na Fakeland, mas como as pessoas precisam de um pouco de descontração, acho que tenho uma chance de emplacar um best-seller na categoria ficção.

 

O texto “Fakeland” foi primeiramente publicado na coluna Meu Estilo, Patricia Lages, no R7

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Jornalista, especialista em finanças e autora de 5 best-selleres. Colunista do portal R7 e apresentadora do JR Dinheiro, no Jornal da Record.

  • Da série….. “hora do horror, com Patricia Lages!”….. acho que emplacaria, sim!
    Beijos que eu vou viver…. feliz!

  • Eu como leitor de histórias de fantasia amei a ideia!! Já quero o meu livro. Sou do Mídia FJU, quem sabe não fazemos um filme Made in FJU 🤣😍😉. Tem tudo para arrebentar!

  • É muito triste. Mas é a realidade. Além dos príncipes o pior na minha opinião são os meios de comunicação. Eu já fui tão igênua acreditando que tudo que eu via nos jornais era verdade. Eu pensava que ninguém arriscaria reputação, honra e todo o esforço de formação para depois de ser jornalista ajudar a manipular a verdade.

  • Bom dia querida! Pois é! Estamos tds na Fakeland . Idéia para um bom livro. Um grande abraço 😍😘

  • Olá Patricia, acho que vc minimiza os riscos da pandemia de coronavirus no seu artigo, e isso me parece grave num país onde tanta gente nega a gravidade da doença que já matou mais de 150.000 pessoas. Vc não aborda fatos importantes: A alta capacidade de infecção do virus, a dificuldade de saber como cada organismo reagirá a ele e o principal, a ausencia até agora de cura e remedios eficazes. Não sei aonde vc viu que pessoas que ficaram em casa se infectaram tanto qto as que sairam, gostaria de ver esses estudos pois os que eu conheço falam o contrario, paises que negaram a letalidade do virus e do isolamento, como Brasil e Eua tem o maior numero de infectados, e paises como a Suecia, que não aderiu ao isolamento, teve muito mais mortos que os que cumpriram mais rigorosamente a quarentena. Se o Brasil tivesse feito a quarentena direito no inicio teriamos menos mortos e uma situação já bem mais tranquila atualmente

    • No meu texto não há minimização, o que não há é maximização, o que é totalmente diferente.
      Os dados de que mais pessoas foram infectadas em casa são do prefeito de NYC que foi o único que teve coragem de divulgar. Ele pessoalmente foi a público dizer isso.
      A Suécia foi extremamente criticada por NÃO fazer isolamento radical, não tenho ideia de onde saiu essa informação contrária.
      Os EUA tiveram mais de 200 mil mortos e, no mês passado, o CDC (maior centro americano de doenças e prevenção) revisou todas as mortes e atestou que apenas 6% morreram efetivamente por conta da covid-19. Seis por cento de 200 mil são 12 mil. Cada vida importa, mas é óbvio que não é um número que causaria tanta comoção.
      Esses são os dados reais que não interessam à grande mídia divulgar e a minha pergunta é: por quê? Porque se fala tanto só nessa doença sendo que morrem 4 vezes mais pessoas só de HIV do que de covid? Morrem muito mais pessoas de fome do que de covid, então porque estão distribuindo máscaras em vez de comida?
      Essa suposição de que o Brasil tem 150 mil mortos porque não fez quarentena direito é exatamente isso: suposição, e eu não trabalho com suposições, mas com fatos e dados. E eles estão acima. Do mesmo jeito que eu os encontrei, qualquer pessoa poderia ter encontrado. Eu não compro o que querem me vender, mas garimpo muito bem antes de comprar.

  • Brilhante esse texto! As pessoas se acostumam rápido à perda da liberdade, é impressionante, mas é a verdade que estamos vivendo. Muito bom saber que nem todos estão de olhos fechados!!!

  • FAKELAND da vida real. Infelizmente estamos imerso nesse enredo.
    Patrícia sempre criativa. Que Deus te abençoe e te guie nesse novo projeto.
    Abraços

  • Olá Patrícia Lages… acho que você retratou poeticamente nosso reino Brasileiro da província de São Paulo…Um reino encantado, com recursos e cheio de aventuras, porem, com um bruxo disfarçado de príncipe de luz, ou seria Lúcifer???
    bora la, Paty….. trabalhe nesse conto….. best seller a vista…..

    se quiser depoimentos pra ilustrar e deixar mais legal os episódios das historias, pode me dar um oi que envio pra você gratuitamente…. você vai arrasar….

    tenho conteúdos pra contribuir – sou professora da rede publica, meus filhos são adolescentes e por ai vai…. só com meus depoimentos você pode garantir pelo menos uns 3 capítulos, rsrsrs

    Infelizmente sou personagem típica desse reino – a turma que luta, dando murros em ponta de faca pra tentar mostrar o lucífer transvestido de príncipe docinho na minha província real paulista.

    beijos, Patrícia…. quero muito conhecer você pessoalmente

    • Professora nota dez!
      Quanto à “obra”, vai ficar só na ironia mesmo!! rs…rs…

  • Oi Paty!
    Confesso que tomei um susto quando li seu texto. Sempre leio duas vezes e me questionei como algumas leitoras fizeram. E o índice de letalidade? Mas depois parei e fui vendo: um vírus que pode ser morto por álcool em gel, evitado com máscaras (feitas por qualquer pessoa)… Será que é tão difícil de ser combatido? Fui juntando os pontos. Paty, fomos (talvez não vc rsrs) enganados! E agora vem essa coisa de segunda onda. Aqui em SSA já começaram a anunciar que as UTI’s pediatricas estão lotadas. Secretário de Saúde já apareceu na tv. Creio que após as eleições a segunda onda vai chegar. Bem, o que fazer diante disso? Não acredito que dê para lutar contra o sistema. Como fazer Paty?

    • Oi, Caroline
      Postei hoje no R7 o índice de letalidade da covid-19, que foi revelado por um estudo de Stanford: 0,23%. isso mesmo: 0,23%. Será que parariam o planeta por uma doença que mata 4 vezes menos que o HIV, por exemplo, doença com a qual convivemos há décadas e já vitimou muito mais pessoas? Se eles amam tanto a “vida”, por que não se empenharam em uma vacina para o HIV, ou mesmo para a dengue que está entre nós há quase 20 anos?
      Enfim, não vamos contra o sistema, só não vamos nos deixar levar por ele! Beijos

  • Olá Patrícia! Pensei incluir na “Fakeland” a personagem “gata borralheira” que tinha que voltar para casa antes da meia noite porque a “linda carruagem” dela voltava a ser uma abóbora…Gostei muito da abordagem criativa e mais leve no formato ficção e, não significa estar alienada quanto as situações da realidade. Parabéns pelo seu trabalho!

  • A dengue não tem dado trégua nesse reino, e isso não tem preocupado tantos os moradores, que já se acostumaram com essa doença danada.

  • Amei o texto, bela abordagem em forma de conto.
    Triste ver como somos manipulados e pior ainda, como as pessoas se deixam manipular.
    Todos os dias paro um tempo para questionar as informações que recebo, confesso que é dificil filtrar o que é verdadeiro, mas o que importa mesmo é saber que as minhas atitudes estão fazendo minha saúde mais forte: pegar sol, fazer exercicíos, comer bem, repôr vitaminas, ler e orar.
    Espero sair desse tempo de pandemia mais forte.
    As estatísticas precisam ser questionadas, no mínimo interpretadas para não cairmos em armadilhas.
    Imagine que eu não vou abraçar meus amigos, por que se for assim o vírus pode não me matar, mas a tristeza irá.

  • Quando li sobre o que você fala Patrícia, sobre o Coronavírus, pela primeira vez, fiquei revoltada por ser tão manipulada, e não pensar sobre a imposição que estavam fazendo. Se juntarmos as peças desse quebra-cabeça, é como a Caroline Costa escreveu no comentário dela, como uma doença que pode ser combatida por álcool em gel e por máscaras feitas em casa por qualquer um, é tão letal que se eu sair na rua vou pegar e morrer?
    E se você perceber a medição de temperatura é feita na testa ou na mão, isso é muita coincidência! O medo é a maior arma do diabo para controlar as pessoas, pois o medo inibe nossa capacidade de raciocínio lógico. O problema é que muitos não entendem isso e se deixam dominar pelas imposições sem pensar que até Deus, sendo quem é, Criador dos Céus e da Terra, me deu um poder chamado livre-arbítrio. E Ele ainda nos deu Seu Filho para nos salvar, e mesmo assim Deus não nos obriga a nada, muito pelo contrário, Ele é gentil, atencioso e paciente em nos salvar.
    A sabedoria da Palavra de Deus abala o poder dos poderosos e gananciosos desse mundo, pois nos faz pensar e assim nos tornamos livres das mentiras e enganos desse mundo.

    “Porque um certo ourives da prata, por nome Demétrio, que fazia de prata nichos de Diana, dava não pouco lucro aos artífices,
    Aos quais, havendo-os ajuntado com os oficiais de obras semelhantes, disse: Senhores, vós bem sabeis que deste ofício temos a nossa prosperidade;
    E bem vedes e ouvis que não só em Éfeso, mas até quase em toda a Ásia, este Paulo tem convencido e afastado uma grande multidão, dizendo que não são deuses os que se fazem com as mãos.
    E não somente há o perigo de que a nossa profissão caia em descrédito, mas também de que o próprio templo da grande deusa Diana seja estimado em nada, vindo a ser destruída a majestade daquela que toda a Ásia e o mundo veneram.
    E, ouvindo-o, encheram-se de ira, e clamaram, dizendo: Grande é a Diana dos efésios.”
    Atos 19:24-28
    Os poderosos tem medo de perder seu domínio, então apelam para o medo e desordem, e o pior é que o povo nem pensa e é levado como a boiada ao matadouro:
    “A assembléia estava em confusão: uns gritavam uma coisa, outros gritavam outra. A maior parte do povo nem sabia por que estava ali.”
    Atos 19:32

    Patrícia, esses cem dias tem sido muito impactantes e vou carregar cada aprendizado com fé e amor.
    Beijos!

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